sábado, 17 de novembro de 2007

Língua x Fala

Bom, agora já temos subsídios suficientes para compreendermos as dicotomias saussurianas, que impressionaram mais pela sua complexidade que pela novidade no método de abordagem.

O pensamento do mestre à cerca de língua e fala não é simplesmente de que ambos são, juntos, os componentes da linguagem. Seu pensamento vai além, porque aborda a linguagem como algo que se divide em língua e fala, ao mesmo tempo, onde língua e fala se interligam (CLG, 17 e ELG, 24 e 60).

Uma coisa é tomarmos á língua, de forma autônoma, como ponto de partida - e nos formamos ouvindo que essa teria sido a opção saussuriana de abordagem - ou, ainda, investigarmos os fatos da fala isoladamente da língua, outra, é nos obrigarmos a admitir que a língua social, mental, não se perfaz sem a fala de forma que nem a alcançaríamos acaso fossemos uma sociedade áfona. Por isso, acreditou Saussure que a fala, através do signo, organiza o pensamento para a linguagem (CLG, 130/131 e ELG, 45). E fala individual - fenômeno acústico e psíquico - também não pode ser considerada sem a língua. Considerar apenas uma seqüência de ondas sonora - figura vocal - é possível, mas dirá respeito apenas às abordagens da Física.

Fica fácil perceber onde o lingüista amarrou seu burro, afinal, foi justamente diante de um objeto a ser analisado a partir de sua ligação com um outro objeto que, no momento de análise, estão forçosamente amalgamados (ELG, 21/22).

Quem fala emite um som sobre o qual já considerou mentalmente. O som do que se fala, antes de ser físico, buscou uma impressão mental com valor lingüístico; buscou o signo. Só irá falar quem já tem em sua mente uma organização de significados unidos aos significantes de forma arbitrária, e que, apesar disso, não poderiam facilmente se desunir dentro do cérebro. Significado e significante ficam assim, armazenados, esperando a hora de entrarem na ciranda do discurso através da fala. Assim é que se pode afirmar que a língua, nos fatos da linguagem, se encontra na mente do falante; onde estão associados os conceitos às imagens acústicas (CLG, 19/20 e ELG, 22).

Fica assim entendido: Linguagem é o resultado da interação entre língua e fala e não simplesmente da associação, e muito menos da união, entre ambos.

É através da fala que a língua se atualiza e se transmite através do tempo e das pessoas, das comunidades de fala, e que os pensamentos são organizados em signos dentro da mente. E é pela língua que a fala se programa e acontece, ao mesmo tempo, no presente e no passado. A fala projetaria a língua para os fatos da fala; para a comunicação. A língua, por sua vez, resultaria das impressões da fala sobre o exercício mental, do esforço mental em traduzir os pensamentos em signos.

À realização individual da língua através da fala Coseriu (1973:97) chamou norma, que nada mais é que a fala como, de fato, ela é. (Carvalho, 82).

E é isso! Espero você para pensarmos, juntos, a próxima dicotomia saussuriana: Sincronia e Diacronia.

Bibliografia Consultada.

* Além das sugeridas pelo Lingüístic@.com

CARVALHO, Castelar. Para compreender Saussure. Petrópolis-RJ, Vozes, 2002.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Linguagem...

Retomando o nosso bate-papo sobre lingüística saussuriana, é bom relembrar o conceito de linguagem para Saussure, bem como o quanto considerou desafiante para a lingüística a determinação de uma entidade lingüística devido à própria situação de complexidade da linguagem e, de como surge a necessidade de “dividir” os elementos formadores da linguagem numa tentativa de se compreender o elo forçosamente existente entre eles.

Segundo o CLG, para Saussure, a linguagem possui um lado individual, a fala, e um lado social, a língua. Desta forma, a linguagem implicaria num sistema estabelecido e numa evolução; isto porque é uma instituição atual, ao mesmo tempo em que é, também, um produto do passado (CLG,16 e ELG, 40).

De fato, é na situação de fala que a linguagem existe completamente. Porém, neste dado momento, todos os falantes colocam em prática uma língua dada; conhecida por todos e que é falada por sua comunidade desde sempre. Essa mesma língua é reinventada e atualizada no exato momento de sua execução através da fala, entretanto, no momento justo em que são pronunciados seus enunciados eles vão, na medida em que são articulados, ficando no passado.

A complexidade da linguagem não reside apenas no fato de ser uma entidade do presente e do passado, ao mesmo tempo. Sua condição dual também contribui para isso, o que dificulta para o lingüista a tarefa de determinar uma entidade lingüística (ELG, 21).

A dificuldade está justamente no elo entre os elementos constituintes da linguagem, que, separadamente, jamais pederiam ser representados por uma simples soma de fatores isolados e autônomos, e, sim, pela divisão de um só elemento em dois fatores autônomos e interdependentes. O que impossibilita ao pesquisador analisá-los separadamente como faria um químico ao analisar os elementos formadores do ar, por exemplo.

O fato, é que, de um lado tem-se um fenômeno vocal como tal; o som ou a figura vocal, e do outro um fenômeno vocal como signo. O primeiro; um fato físico e objetivo, o segundo; um fato mental e subjetivo. (ELG, 24/25).

Se, como se pensava mesmo no tempo de Saussure – e ainda pensam alguns na atualidade, a dualidade bifurcasse som e idéia, a lingüística estaria diante de um elemento simples, uma vez que sua tarefa consistiria em determinar o que é de ordem física e o que é de ordem psíquica na linguagem.

Porém, o que a lingüística tem a determinar, não está, para o mestre genebrino, num ou noutro elemento formador da linguagem, mas na ligação entre eles.

E é justamente na complicação que se estabelece, ao se buscar compreender em que momento e de que forma, exatamente, uma seqüência de ondas sonoras se torna capaz de representar uma idéia, um conceito mentalmente unido a uma imagem acústica, que parece ter surgido a necessidade saussuriana de separar e dicotomizar os conceitos já existentes.

E, assim, o fez Saussure: Dividiu o objeto de sua investigação sem, no entanto, desconsiderar o elo que faz com que cada elemento, abordado a partir de um dado ponto de vista, seja encarado como apenas um lado de uma mesma moeda.

A mesma lógica de investigação foi aplicada ao signo. O que torna mais fácil a compreensão da dicotomia Língua/Fala da qual trataremos na postagem à seguir.

Até breve!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Arbitrariedade absoluta e arbitrariedade relativa do signo.

Durante este período de ausência de post no blog estive analisando as entradas para ele. Mais de 80% delas advêm de pesquisas google feitas no Brasil e em Portugal, pelas quais sou muito agradecida. Tal análise me permitiu verificar quais os temas que mais freqüentemente motivaram essas buscas, e no que se refere aos assuntos já tratados, pude perceber que, sobre os signos, faltou esclarecer um pouco mais sobre a arbitrariedade, uma vez que não se falou sobre arbitrariedade absoluta e arbitrariedade relativa.
Bem, condição de arbitrariedade, como vimos, está diretamente ligada ao fato de o signo ser ou não motivado. Quando se fala arbitrariedade absoluta diz-se total falta de motivação, e, quando se diz arbitrariedade relativa, diz-se, também, motivação relativa ou, considera-se ter havido aí alguma ligação motivada entre significado e significante.
Mas, para que fiquem bem claros estes conceitos, e sobre eles não paire a menor dúvida, faz-se necessária à compreensão precisa do termo motivação dentro da perspectiva saussuriana.
Nós temos alguns elementos que nos servem de sinal; de representatividade de algo mais que não está explícito totalmente no elemento que o representa. Estes elementos representativos; sinais, tanto podem ser de caráter natural, quanto convencional.
Os sinais de caráter natural são aqueles que nos servem de indícios dos fenômenos naturais, como, por exemplo, a fumaça, que nos indica a presença do fogo, ou o trovão, que nos aponta para a possibilidade de chuva.
Os sinais de caráter convencional são aqueles que a sociedade contratou, concordou, a partir de algum momento, que seria o que melhor representaria, dentro daquela realidade de fala, uma idéia tal. O ícone, o símbolo e o signo são esses sinais criados dentro da coletividade de fala.
Por ser totalmente imagístico, o ícone é totalmente motivado, isto porque só se faz uma imagem a partir de um dado elemento. A foto de Maria deve consistir na impressão da imagem de Maria. O mesmo ocorre com a estatueta de um pássaro, ela deve consistir num conjunto de características inerentes àquele pássaro que pretende representar. O ícone deve impressionar os sentidos de forma tal que não permita confusão alguma no momento de identificá-lo e saber o que ele representa. Ele é motivado por aquilo que representa.
O símbolo é menos motivado, isto porque não tem que representar uma idéia exclusiva, mas uma idéia genérica. Dessa forma, uma pomba branca pode trazer a idéia de paz, seja lá o que for que a paz signifique para quem a percebe. De igual modo têm-se uma balança para representar a justiça, independente do conceito que cada indivíduo tenha deste termo. Assim, qualquer balança serve para trazer a idéia de justiça, mas, nem toda imagem de ave serve para representar um falcão. Por isso diz-se do símbolo que é relativamente motivado.
O signo não possui motivação nenhuma, por isso é totalmente arbitrário, porque o nome em nada está ligado ao objeto nomeado. Uma criança pode ser, ao mesmo tempo, um menino, uma garota, um guri ou um piá. Todos esses signos representam bem a idéia de infante. E, poderíamos, ainda, considerar que, cada idioma tem seu conjunto próprio de signos para designar a mesma idéia. Isto prova que o signo não está ligado ao que representa de forma motivada, mas imotivada.
Porém, quando temos o numeral dez e o numeral nove, temos dois signos absolutamente arbitrários. Mas, quando temos o numeral dezenove, a arbitrariedade torna-se relativa, isto porque dezenove é a junção de dois conceitos distintos que são representados por signos diferentes. O signo que surge dessa junção é fiel às idéias contidas nos signos anteriormente separados, e aí está a motivação.
No próximo post abordaremos a dicotomia langue/parole a partir do conceito saussuriano de linguagem. Até breve!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O signo saussuriano.


A análise dos principais aspectos do signo saussuriano será feita a partir das colocações CLG e dos ELG. Apesar de considerar o fato de o primeiro livro ter vindo à tona desde o início do século passado e definido os fundamentos da lingüística saussuriana até o presente momento, tomaremos as considerações do livro atual, elucidando de forma mais profunda os seus pensamentos a cerca da lingüística e seu objeto. Dessa forma, não seria de mais solicitar do leitor a atenção devida quanto a esta fusão de conteúdos porque, provavelmente, em muitos cursos de Letras, as considerações sobre os ELG não estão, ainda, sendo consideradas e, portanto, essas informações não são vigentes para a fundamentação teórica do curso. Porém, que fique claro que, o objetivo maior desse blog é buscar esclarecer um pouco sobre o pensamento saussuriano no que diz respeito à linguagem, e para isso estaremos sempre abordando o CLG, os ELG e seus ensaios sobre fonética do indo europeu. Espera-se, a partir de tal abordagem, que possamos fornecer elementos que auxiliem na compreensão dos fundamentos lingüísticos e da genialidade do mestre de Genebra.

É importante, antes de tudo, compreender que considerou Saussure o signo como uma entidade dicotômica e psicológica . Dicotômica por dividir-se em duas faces; significado e significante. Psicolígica por unir essas duas faces mentalmente. O termo dicotômico advém do grego dichotomía que significa divisão em duas partes, o que desfaz as concepções anteriores para as quais o signo era diático ou triádico. O signo, a partir de Saussure, deixou de ser uma soma de dois ou três termos para se tornar uma divisão de um único e mesmo termo em dois.

Quando postulou o signo como uma entidade puramente psicológica (CLG, 40 e ELG, 24 e 117) que existe dentro de nossa cabeça (ELG, 117) sendo ele uma operação de ordem psicológica simples (ELG, 117) e, ainda, que não é o pensamento quem cria o signo, mas o signo que determina, primordialmente, o pensamento (ELG, 45), foi além, o gênio de Genebra porque rompeu com o que havia de vigente, a esse respeito, até então e lançou novas bases que redefiniram os pensamentos filosófico e psicológico de seu tempo.

A compreensão do signo como uma entidade psíquica, cuja existência é mental, trouxe a conclusão de que o mesmo deixou de ser nominalista, como pretendia Platão, porque passa a inexistir na essência do objeto nomeado. O signo também perdeu sua motivação no objeto dado tornando-se arbitrário. A própria condição de existir apenas na mente humana implica numa condição desvinculada do compromisso ou não com a verdade discursiva de representatividade do universo circundante, como postulavam, respectivamente, Aristóteles e os Sofistas, porque, uma vez mentalista, seu compromisso parece ser com a organização do pensamento em signos para traduzir a idéia do emissor.

Neste ponto, se faz importante destacar que significado; o conceito que se tem do signo e significante; a impressão acústica são fenômenos de ordem psíquica que estão ligados por associação dentro do cérebro e que essa ligação entre ambos é, também, de natureza desmotivada; arbitrária. Inexiste uma motivação no significante para que se ligue ao significado, a não ser pelo convencionalismo social.

É importante estar consiente também de que Significado e significante não podem ser tomados um dissociado do outro. O signo é esta associação indissolúvel entre ambos. O significante diz respeito à imagem mental que se faz quando o ouvido recebe as impressões de uma sucessão de ondas sonoras. Quanto à produção articulatória dos sons é de ordem fonológica ou acústica.
Uma vez mental e arbitrário, o signo pressupõe compartilhamento coletivo, generalidade, exterioridade e coercividade.

A generalidade signica ocorre quando indivíduos de uma mesma comunidade de fala o compartilham. Ele é externo no que diz respeito ao seu uso corrente; um idioma é compartilhado por seus falantes e sua existência já não depende deles. O fato de falarmos o português no Brasil, e de nossos filhos aprenderem o mesmo idioma, em pouco tempo após terem nascidos, se dá pelo poder de coercividade do signo lingüístico, uma vez que não está ao alcance do indivíduo trocar coisa alguma num signo, uma vez esteja ele estabelecido num grupo lingüístico” (CLG, 41).

Esse conjunto de características – generalidade, exterioridade e coercividade – fazem do signo um fato social no rigor da Sociologia positivo-funcionalista de Durkheim.

Outra característica fundamental do signo é a linearidade. Esta se dá em função do tempo de produção das ondas acústicas que o projetarão no espaço físico. Quando pronunciamos uma palavra, ela surge no vazio do tempo e preenche um determinado espaço de tempo que corresponde à duração de sua emissão. Após sua produção tudo é vazio novamente, o que pode ser representado por um sistema fechado que ocorre de um ponto ao outro na linha do tempo.

Não poderíamos deixar de mensionar algo sobre figura vocal, forma e valor. Até mesmo porque muitas confusões são feitas acerca destes conceitos.


Há quem confunda significante com figura vocal, o que seria um equívoco. O primeiro, como já pudemos observar, é parte indissolúvel do signo psíquico, e só tem existência na mente humana. O segundo diz respeito à produção fonológica ou à representação gráfica do signo quando este é tomado isoladamente; uma palavra fora da frase ou oração, por exemplo. Isto porque, no instante em que o signo perde a totalidade de suas significações, ele nada mais é do que uma figura vocal (ELG, 44).

A forma é a figura vocal no dado instante em que é introduzida no jogo de signos ao qual chamou-se língua (ELG, 38); é a palavra em uso.
Neste ponto, é bastante interessante saber que, para o gênio genebrino a palavra é o signo da idéia e a idéia o signo da palavra (ELG, 44), e, portanto, um signo só é numa situação comunicativa, seja ela mental ou social.

Saussure considerou que uma forma não significa, mas vale (...) e, por conseguinte ela implica a existência de outros valores. (ELG, 30).

Entenderemos melhor o sentido de valor da forma a partir do seguinte exemplo:
Tomemos uma moeda de R$ 1,00 (Hum real). O seu valor não é calculado pela quantidade de metal gasta em sua fundição, tão pouco pelo trabalho empregado para desenhá-la e fabricá-la. O seu valor é encontrado nas relações sociais de troca. Hoje, talvez, se consiga trocá-la por cinco pães franceses, e esse será o seu valor. Talvez, amanhã, devido a uma possível alta no preço do trigo no mercado interno, o seu valor seja o de apenas dois pães, ou, por conta de uma baixa do trigo, venha a ser de sete pães.

Tudo é muito relativo nas relações sociais de troca, assim como é relativo o valor lingüístico da forma. Uma forma, então, valerá, (significará) o que nenhuma outra significa dentro de uma mesma relação. E seu significado resultará da diferença de valor das formas.

Em suma, uma palavra é o resultado significativo de sua relação com as demais dentro de um enunciado. E apenas nessa situação, e em nenhuma outra mais, poderemos encontrar o seu valor (significado); dentro do contexto em que foi empregada.

O nosso próximo tema tratará da dicotomia Langue/Parole.