quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sincronia e Diacronia: aspectos estático e evolutivo da língua.

Bom, após um “curto” período de “férias”, estamos aqui, novamente, para retomarmos os nossos assuntos lingüísticos. E assim, sem mais delongas, vamos aos conceitos saussurianos de sincronia e diacronia...

Para Saussure, havia duas formas da ciência lingüística observar a língua: em sua época e através do tempo. O único problema da Lingüística, com relação a este ponto, seria justamente o fato da língua ocorrer, ao mesmo tempo, em seu tempo e ao longo dele. O fato é que, se houvesse a possibilidade de se considerar cada coisa da língua em seu tempo e através do tempo, de forma que, de nenhum ponto de vista, uma coisa tivesse proeminência sobre a outra, a lingüística teria sido considerada uma ciência simples para o mestre de Genebra (ELG p. 79).

Porém, não é o que acontece. A língua, ao mesmo tempo em que ocorre no presente relacionando idéias e formas de modo aparentemente estático, atualiza-se, passando do presente ao passado. Sua ocorrência se dá numa série de sucessões de estados lingüísticos, através do tempo. Desta forma, a lingüística se obriga a empregar dois pontos de vista, aparentemente dissociáveis, para analisar um mesmo objeto.

Saussure comparou a situação da língua e do lingüista diante do fator tempo com uma partida de xadrez (CLG p. 104/105), e desta forma, ilustrou qual poderia ser a melhor saída para o aparente impasse.

Considerando o jogo no momento exato em que chega um observador, pode-se daí fazer algumas considerações elucidativas a respeito do estudo da linguagem. Para tal observador, a posição atual assumida pelas peças, no tabuleiro, lhes dá uma noção exata da situação do jogo. Sua percepção de tal situação independe da forma como uma peça ou outra evoluiu dentro da partida até que assumisse a posição atual. Da mesma forma, para o cientista lingüístico compreender a língua e sua relação com o sistema é dispensável que se dedique a investigar o modo e os motivos pelos quais a língua observada alcançou a forma em uso no momento de sua observação. Essa visão estática, desvinculada das ocorrências anteriores que se deram ao longo do tempo é uma visão sincrônica. Uma abordagem diacrônica, retomando o jogo de xadrez, seria aquela que permitiria ao observador conhecer cada lance da partida até que as peças assumissem a posição atual. Tal observação o daria informações sobre as ocorrências. Sobre como um movimento de uma peça levou a outro sucessivamente e não mais sobre a situação atual do jogo. O objeto, forçosamente, deixaria de ser a situação para ser a evolução; funcionamento e processo histórico.


Desta forma, definiu o mestre que seria mais pertinente observar a língua sob o aspecto sincrônico do seu funcionamento, que do aspecto diacrônico para se obter como efeito uma melhor compreensão do mecanismo lingüístico.

Bom, é isso aí! Em breve estaremos pensando sobre os eixos sintagmático e paradigmático. Até lá!

sábado, 17 de novembro de 2007

Língua x Fala

Bom, agora já temos subsídios suficientes para compreendermos as dicotomias saussurianas, que impressionaram mais pela sua complexidade que pela novidade no método de abordagem.

O pensamento do mestre à cerca de língua e fala não é simplesmente de que ambos são, juntos, os componentes da linguagem. Seu pensamento vai além, porque aborda a linguagem como algo que se divide em língua e fala, ao mesmo tempo, onde língua e fala se interligam (CLG, 17 e ELG, 24 e 60).

Uma coisa é tomarmos á língua, de forma autônoma, como ponto de partida - e nos formamos ouvindo que essa teria sido a opção saussuriana de abordagem - ou, ainda, investigarmos os fatos da fala isoladamente da língua, outra, é nos obrigarmos a admitir que a língua social, mental, não se perfaz sem a fala de forma que nem a alcançaríamos acaso fossemos uma sociedade áfona. Por isso, acreditou Saussure que a fala, através do signo, organiza o pensamento para a linguagem (CLG, 130/131 e ELG, 45). E fala individual - fenômeno acústico e psíquico - também não pode ser considerada sem a língua. Considerar apenas uma seqüência de ondas sonora - figura vocal - é possível, mas dirá respeito apenas às abordagens da Física.

Fica fácil perceber onde o lingüista amarrou seu burro, afinal, foi justamente diante de um objeto a ser analisado a partir de sua ligação com um outro objeto que, no momento de análise, estão forçosamente amalgamados (ELG, 21/22).

Quem fala emite um som sobre o qual já considerou mentalmente. O som do que se fala, antes de ser físico, buscou uma impressão mental com valor lingüístico; buscou o signo. Só irá falar quem já tem em sua mente uma organização de significados unidos aos significantes de forma arbitrária, e que, apesar disso, não poderiam facilmente se desunir dentro do cérebro. Significado e significante ficam assim, armazenados, esperando a hora de entrarem na ciranda do discurso através da fala. Assim é que se pode afirmar que a língua, nos fatos da linguagem, se encontra na mente do falante; onde estão associados os conceitos às imagens acústicas (CLG, 19/20 e ELG, 22).

Fica assim entendido: Linguagem é o resultado da interação entre língua e fala e não simplesmente da associação, e muito menos da união, entre ambos.

É através da fala que a língua se atualiza e se transmite através do tempo e das pessoas, das comunidades de fala, e que os pensamentos são organizados em signos dentro da mente. E é pela língua que a fala se programa e acontece, ao mesmo tempo, no presente e no passado. A fala projetaria a língua para os fatos da fala; para a comunicação. A língua, por sua vez, resultaria das impressões da fala sobre o exercício mental, do esforço mental em traduzir os pensamentos em signos.

À realização individual da língua através da fala Coseriu (1973:97) chamou norma, que nada mais é que a fala como, de fato, ela é. (Carvalho, 82).

E é isso! Espero você para pensarmos, juntos, a próxima dicotomia saussuriana: Sincronia e Diacronia.

Bibliografia Consultada.

* Além das sugeridas pelo Lingüístic@.com

CARVALHO, Castelar. Para compreender Saussure. Petrópolis-RJ, Vozes, 2002.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Linguagem...

Retomando o nosso bate-papo sobre lingüística saussuriana, é bom relembrar o conceito de linguagem para Saussure, bem como o quanto considerou desafiante para a lingüística a determinação de uma entidade lingüística devido à própria situação de complexidade da linguagem e, de como surge a necessidade de “dividir” os elementos formadores da linguagem numa tentativa de se compreender o elo forçosamente existente entre eles.

Segundo o CLG, para Saussure, a linguagem possui um lado individual, a fala, e um lado social, a língua. Desta forma, a linguagem implicaria num sistema estabelecido e numa evolução; isto porque é uma instituição atual, ao mesmo tempo em que é, também, um produto do passado (CLG,16 e ELG, 40).

De fato, é na situação de fala que a linguagem existe completamente. Porém, neste dado momento, todos os falantes colocam em prática uma língua dada; conhecida por todos e que é falada por sua comunidade desde sempre. Essa mesma língua é reinventada e atualizada no exato momento de sua execução através da fala, entretanto, no momento justo em que são pronunciados seus enunciados eles vão, na medida em que são articulados, ficando no passado.

A complexidade da linguagem não reside apenas no fato de ser uma entidade do presente e do passado, ao mesmo tempo. Sua condição dual também contribui para isso, o que dificulta para o lingüista a tarefa de determinar uma entidade lingüística (ELG, 21).

A dificuldade está justamente no elo entre os elementos constituintes da linguagem, que, separadamente, jamais pederiam ser representados por uma simples soma de fatores isolados e autônomos, e, sim, pela divisão de um só elemento em dois fatores autônomos e interdependentes. O que impossibilita ao pesquisador analisá-los separadamente como faria um químico ao analisar os elementos formadores do ar, por exemplo.

O fato, é que, de um lado tem-se um fenômeno vocal como tal; o som ou a figura vocal, e do outro um fenômeno vocal como signo. O primeiro; um fato físico e objetivo, o segundo; um fato mental e subjetivo. (ELG, 24/25).

Se, como se pensava mesmo no tempo de Saussure – e ainda pensam alguns na atualidade, a dualidade bifurcasse som e idéia, a lingüística estaria diante de um elemento simples, uma vez que sua tarefa consistiria em determinar o que é de ordem física e o que é de ordem psíquica na linguagem.

Porém, o que a lingüística tem a determinar, não está, para o mestre genebrino, num ou noutro elemento formador da linguagem, mas na ligação entre eles.

E é justamente na complicação que se estabelece, ao se buscar compreender em que momento e de que forma, exatamente, uma seqüência de ondas sonoras se torna capaz de representar uma idéia, um conceito mentalmente unido a uma imagem acústica, que parece ter surgido a necessidade saussuriana de separar e dicotomizar os conceitos já existentes.

E, assim, o fez Saussure: Dividiu o objeto de sua investigação sem, no entanto, desconsiderar o elo que faz com que cada elemento, abordado a partir de um dado ponto de vista, seja encarado como apenas um lado de uma mesma moeda.

A mesma lógica de investigação foi aplicada ao signo. O que torna mais fácil a compreensão da dicotomia Língua/Fala da qual trataremos na postagem à seguir.

Até breve!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Arbitrariedade absoluta e arbitrariedade relativa do signo.

Durante este período de ausência de post no blog estive analisando as entradas para ele. Mais de 80% delas advêm de pesquisas google feitas no Brasil e em Portugal, pelas quais sou muito agradecida. Tal análise me permitiu verificar quais os temas que mais freqüentemente motivaram essas buscas, e no que se refere aos assuntos já tratados, pude perceber que, sobre os signos, faltou esclarecer um pouco mais sobre a arbitrariedade, uma vez que não se falou sobre arbitrariedade absoluta e arbitrariedade relativa.
Bem, condição de arbitrariedade, como vimos, está diretamente ligada ao fato de o signo ser ou não motivado. Quando se fala arbitrariedade absoluta diz-se total falta de motivação, e, quando se diz arbitrariedade relativa, diz-se, também, motivação relativa ou, considera-se ter havido aí alguma ligação motivada entre significado e significante.
Mas, para que fiquem bem claros estes conceitos, e sobre eles não paire a menor dúvida, faz-se necessária à compreensão precisa do termo motivação dentro da perspectiva saussuriana.
Nós temos alguns elementos que nos servem de sinal; de representatividade de algo mais que não está explícito totalmente no elemento que o representa. Estes elementos representativos; sinais, tanto podem ser de caráter natural, quanto convencional.
Os sinais de caráter natural são aqueles que nos servem de indícios dos fenômenos naturais, como, por exemplo, a fumaça, que nos indica a presença do fogo, ou o trovão, que nos aponta para a possibilidade de chuva.
Os sinais de caráter convencional são aqueles que a sociedade contratou, concordou, a partir de algum momento, que seria o que melhor representaria, dentro daquela realidade de fala, uma idéia tal. O ícone, o símbolo e o signo são esses sinais criados dentro da coletividade de fala.
Por ser totalmente imagístico, o ícone é totalmente motivado, isto porque só se faz uma imagem a partir de um dado elemento. A foto de Maria deve consistir na impressão da imagem de Maria. O mesmo ocorre com a estatueta de um pássaro, ela deve consistir num conjunto de características inerentes àquele pássaro que pretende representar. O ícone deve impressionar os sentidos de forma tal que não permita confusão alguma no momento de identificá-lo e saber o que ele representa. Ele é motivado por aquilo que representa.
O símbolo é menos motivado, isto porque não tem que representar uma idéia exclusiva, mas uma idéia genérica. Dessa forma, uma pomba branca pode trazer a idéia de paz, seja lá o que for que a paz signifique para quem a percebe. De igual modo têm-se uma balança para representar a justiça, independente do conceito que cada indivíduo tenha deste termo. Assim, qualquer balança serve para trazer a idéia de justiça, mas, nem toda imagem de ave serve para representar um falcão. Por isso diz-se do símbolo que é relativamente motivado.
O signo não possui motivação nenhuma, por isso é totalmente arbitrário, porque o nome em nada está ligado ao objeto nomeado. Uma criança pode ser, ao mesmo tempo, um menino, uma garota, um guri ou um piá. Todos esses signos representam bem a idéia de infante. E, poderíamos, ainda, considerar que, cada idioma tem seu conjunto próprio de signos para designar a mesma idéia. Isto prova que o signo não está ligado ao que representa de forma motivada, mas imotivada.
Porém, quando temos o numeral dez e o numeral nove, temos dois signos absolutamente arbitrários. Mas, quando temos o numeral dezenove, a arbitrariedade torna-se relativa, isto porque dezenove é a junção de dois conceitos distintos que são representados por signos diferentes. O signo que surge dessa junção é fiel às idéias contidas nos signos anteriormente separados, e aí está a motivação.
No próximo post abordaremos a dicotomia langue/parole a partir do conceito saussuriano de linguagem. Até breve!